Existe ainda hoje um doentio preconceito contra o que chama-se “música jovem”. Estamos em 2020 e o Rock foi o gênero que mais marcou o século passado; com seus ícones, “deuses” que ditaram moda e comportamento, da metade dos anos 50 até os dias de hoje. Quase 70 anos depois, o que era pop virou clássico.

Mas, não só isso. Com suas inúmeras vertentes foi político sendo apolítico, artístico sendo antiartístico, transformando indivíduos em seres coletivos; por meio dos grupos, tribos associadas a cada uma das ideias dessas vertentes; trazendo cada um, sua vivência, seu ingrediente para dentro dessa sopa de referências. Um gênero rico em diversidade, artístico-étnico-cultural.

Atualmente no Brasil pouco se fala, pouco se entende, pouco se nota nas grandes rodas intelectuais de discussão, a imensa importância dos letristas do Rock para a compreensão do mundo e dos vários mundos que nele cabem. A arte na música em geral, não só no Rock, é vista por muitos, como pedantismo e pretensão. Contudo, esse diálogo entre as diversas linguagens da arte sempre existiu. Esses diálogos existem para romper as barreiras da incompreensão e gerar um “benéfico transtorno”, para abalar os alicerces do que é o estabelecido e através das ruínas do “antigo império dos sentidos”, perceber novas estruturas, novas possibilidades.

Uma “Música Sábia”, parafraseando Blake, que “de tanto insistir na sua loucura – o louco – acabaria tornando-se sábio.”

Aqui, na superfície, no deserto, está um marasmo só.

Onde está a desordem para desmascarar essa falsa harmonia?

E Onde andarão os gritos, há muito silenciados pela mídia oficial?

Resposta: No subterrâneo, no “Underground”, na independência.

Na ruptura que virou tradição, Bob Dylan(Thomas), conquistou o Nobel.

Patti Smith, ainda desafiadora e belíssima poeta, virou uma das queridas da rapaziada que se liga em literatura pop.

Ian Curtis, um dos grandes porta-vozes da “revolução melancólica” do post-punk, cultuado e mais conhecido hoje, graças a filmes e dezenas de publicações, replicando a via-sacra de sua alma atormentada. Por mais dissecado não chega a ser pop.

Jim Morrison sonhava em ser reconhecido como poeta.

Leonard Cohen conseguiu este feito.

Morrissey e sua veia satírica wildeana. Sempre houve inteligência na loucura.

No Brasil dos anos 80, uma leva de bandas, geralmente de universitários, com grandes referências das artes em geral; trouxe ao universo da música pop, sobretudo no underground, várias novas propostas sonoras, envolvendo letras poéticas, ora rebuscadas, simbolistas, ora na contramão da facilidade textual e com uma carga de explosivos verbais para dinamitar a língua e muitas vezes a ponte para o entendimento.

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O desafio de fazer “Música Sábia” num ambiente de poucos letrados foi e ainda é “suicídio comercial”.

Destes grandes letristas, um destacou-se como escritor também, Cadão Volpato (Fellini). Outros escreveram em vários veículos como Júlio Barroso (Gang 90), José Augusto Lemos (Chance). Alguns escreveram livros também como Alex Antunes (Akira S & As Garotas que Erraram) e Vange Leonel (Nau). Renato Russo tinha em mente escrever um livro aos 50 anos, suas mãos pararam antes. Marcelo Marthe (Vzyadoq Moe), Flavio Murrah (Hojerizah), letristas do absurdo, de poesias rebuscadas, beirando o abismo do caos linguístic;, ficaram no esquecimento como poetas. 

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Canções que desafiavam a comodidade dos ouvintes, acostumados a frases mais divertidas; mantinham-se bem além da zona de conforto das FMs. Outros grandes poetas do Rock tupiniquim 80, vinham das Gerais. Praticamente invisíveis, Jair Fonseca ou Gatto Jair (Último Número) e Marcelo Dolabela (Divergência Socialista); no início da década oitentista, faziam parte do coletivo de poesia Cemflores, de Belo Horizonte, antes dos seus grupos e continuaram invisíveis. “Carta do Marquês” do Último Número é uma amostra de como é possível fazer uma canção de Rock altamente poética e acessível, assim como “Andréa Doria” da Legião Urbana. Entretanto, ninguém viu o Rock das Gerais e muito menos seus letristas nos anos 80.

Um dos letristas mais celebrados pelos críticos daquela época, foi o dadaísta Pedro Parq; português que aterrissou em São Paulo e substituiu a musa pop Virginie, num dos grupos de maior sucesso radiofônico, Metrô.

Ele havia feito parte da banda lusitana Mler Ife Dada, que era do staff da primeira gravadora independente da Terrinha, o selo Ama Romanta; liderado pelo carismático João Peste, voz de outra banda, os Pop Dell’Arte. Com Parq, o Metrô “arquitetou sua própria destruição”; com letras dadaístas, desafiando o lugar-comum da fala, com a obra de difícil aceitação comercial, a ímpar “A Mão de Mao”.

Ciro Pessoa (ex-Titãs), mergulhou fundo em Edgar Allan Poe e em poesia concreta. Assim como, seu ex-comparsa Arnaldo Antunes, e montou seu Cabine C. Fósforos de Oxford é uma alteração e um enigma. Existem outros proscritos do Rock nacional, como Márcio “Satanesio” Bandeira e Tantão (Black Future) e um clássico dos subterrâneos da Lapa, cheio de sarcasmo, HQ, Antonin Artaud e Teatro do Absurdo; o épico “Eu Sou o Rio”. Picassos Falsos, supercariocas também, declamaram em prosa e verso, a catástrofe das enchentes no ano de 88; e transformou a dor dos deslizamentos em obra de alto teor poético, o lírico e impecável “Supercarioca”. A coragem de musicar uma tradução de “Provérbios do Inferno”, de William Blake (Mercenárias) ou “Canção da Torre Mais Alta” de Rimbaud (Hojerizah); em pleno “xou da xuxa” é de reverenciar de maneira entusiástica.

Suicídio comercial exemplar!

Existem mais exemplos de que o Rock, seja aqui ou no Nilo, é também um local onde encontra-se sabedoria além da loucura e do desbunde. Aliás, essa turma “que não foi nada” durante os anos 80, deram uma importante contribuição para a história da literatura e a fusão de outras linguagens na música brasileira.

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