Princípios E Práticas Da Educação Anarquista – Parte II

Vitor Ahagon

Essa é a continuação deste texto aqui sobre Educação Anarquista, e os princípios e práticas da pedagogia libertária foram construídas ao longo de um processo histórico que compreendeu o esforço de centenas de militantes anarquistas espalhados no mundo todo durante o final do século XIX e começo do XX.

Assim sendo, independente das diferenças regionais e nacionais que todas essas experiências tiveram, elas se localizam dentro de um quadro de globalização do modo de produção capitalista e mundialização do modelo de organização do poder político do Estado Nação.

Neste sentido, falaremos agora não dos traços que distinguem umas e outras experiências pedagógicas – o que é extremamente rico

Isso pois, as influências das populações de cada local desenvolveram o anarquismo de formas bem diferentes em cada um dos lugares; como, por exemplo o caso do anarquismo no México e suas relações com as populações indígenas.

Porém, neste momento tentaremos ponderar sobre algumas perguntas que atravessam todas essas experiências independente das suas localidades. São elas:

  • Quais foram as condições de produção da educação dentro do contexto de globalização capitalista dos fins do XIX e começo do século XX?
  • O que significa a instituição “escola”
  • Quais são as relações entre o saber e o poder dentro desse contexto para os anarquistas?

Antes de tudo, temos que considerar que a história da educação não é formada a parte da história política ou econômica; mas se constitui como elemento integrante do todo social.

Portanto, de suas determinações econômico-sociais. Contudo, não sugiro que as determinações econômicas validam a educação, mas que as determinações econômicas influem nos rumos da educação. Tanto quanto a produção do saber influi na economia e na política. Logo, as esferas políticas, econômica e cultural são interdependentes umas das outras, afetando-se mutuamente.

Dito isto, podemos dizer que com o processo de desenvolvimento do modo de produção capitalista, as condições de geração da educação acabam por acompanhar as divisões assimétricas da distribuição econômica e de poder. Os que detém o capital, detém também o poder na medida em que a repartição desigual da riqueza é igualmente a repartição desigual do saber.

Uma das marcas que distingue aqueles que detém o saber daqueles que não o têm, é a qualificação da força de trabalho adquirido na experiência vivida em um determinado espaço: a escola.

Consequentemente, o tipo de trabalho realizado pelas classes oprimidas, que para o Capital não requer qualificação tão elaborada, ficaram apartadas do espaço escolar que lhe poderia conferir uma formação técnica ou clássica.

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Imagem do filme alemão A Onda de 2008

Quando o desenvolvimento científico e tecnológico transformou as relações produtivas substituindo a força de trabalho manufaturada pela maquinofaturada; houve a necessidade da universalização do saber ler, escrever e contar. Assim, foram criadas as escolas destinadas às classes oprimidas.

Tais escolas eram confessionais; seguindo uma tradição jesuítica onde o catecismo era inseparável do ensino e todos os desígnios morais eram depositados nas mentes das crianças. Elas também poderiam ser laicas-estatais, mas que realizaram apenas uma substituição dos símbolos e rituais religiosos para os símbolos e rituais  patrióticos.

Agora, antes das aulas de línguas, leitura e matemática, cantaria-se o hino nacional e se saudaria a bandeira; e não mais se rezaria o pai nosso e se reverenciaria Jesus Cristo crucificado (quando não fizessem as duas coisas).

Quando a escola se torna uma obrigação do Estado, outras instituições educacionais foram criadas para as classes dominantes. A escola modelo (grupo escolar, aqui em São Paulo) e as Universidades eram espaços frequentados apenas pela nobreza e burguesia; já que elas que se qualificariam e formariam o corpo dirigente das fábricas, indústrias e do Estado.

Essas classes dominantes, que em muitos países estavam intimamente ligadas à várias Igrejas; formavam os grupos de intelectuais que disciplinavam a mão de obra nas fábricas através da retidão, controle do tempo, etc. Sujeitavam o corpo social a partir da criação de leis do poder legislativo e implementação destas pelo judiciário; e regulavam as “almas” dos fiéis nas comunidades à partir das paróquias espalhadas por vilas, bairros, cidades e estados de todo o país.

Os intelectuais, nada mais eram do que os cães de guarda do poder e do capital! O sistema educacional que os produzia, fazia reproduzir as assimetrias econômicas acentuando o fosso entre as classes dirigentes e exploradoras, das classes exploradas e governadas.

Se o Estado possui o monopólio legítimo da força, a violência não é o suficiente para subjugar a maioria, por isso, professores, padres, pastores e políticos foram tão importantes para “inculcar” o desejo da servidão, fazendo dela, voluntária.

Ainda assim, o saber adquirido nas escolas está promiscuamente ligada ao poder de sujeição e subjugação tanto das classes oprimidas quanto das dominantes. O processo de inculcação do saber/poder ocorria tanto pela memorização e repetição de um discurso quanto pela interiorização de um conjunto de práticas e rituais das quais chamamos de currículo oculto.

Logo, o estudante passava por um processo de subjetivação onde a qualificação não era um elemento neutro do processo de ensino-aprendizagem, mas uma qualificação-sujeição de discursos e práticas instituídas pelas escolas confessionais ou laicas-estatais.

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Os conteúdos memorizados e repetidos correspondiam à função que o estudante realizaria no momento posterior à sua vida escolar. Então, o discurso sobre a produção ficaria reservado aos tecnocratas; o discurso  jurídico reservado aos burocratas; sobre as relações sociais reservado aos políticos; sobre o corpo reservado aos médicos; o discurso do “espírito” reservado ao padre.

Apesar das diferenças das exposições, todos partilhavam do mesmo universo pedagógico, no qual constituem as práticas do ritualismo escolar: exercícios, deveres, disciplinas, punições e recompensas.

Entendendo a escola como uma organização complexa que produz um tipo de “sujeito-sujeitado”. Tais instituições de ensino não são lugares que simbolizam as transformações, muito pelo contrário, são entidades que reafirmam e estratificam as divisões das relações sociais.

Dessa forma, não é a qualificação/educação que determina qual é a posição que os agentes sociais vão ocupar na estrutura social. Mas é o posto dos agentes sociais na estrutura social que determina qual é o tipo de qualificação /educação que estes agentes vão receber e que irão reproduzir  dentro da estrutura social.

Percebendo este quadro, os anarquistas do mundo todo viam a educação e a instituição escolar como máquinas de guerra que produziam e reproduziam a exploração e dominação das classes oprimidas pelas classes dominantes. Por isso, refletiram e praticaram uma educação que buscava não apenas a qualificação, mas a libertação de toda a humanidade.

Resgatando os princípios da Associação Internacional dos Trabalhadores, os anarquistas afirmaram que sua emancipação será obra dos próprios mesmos trabalhadores, e assim criaram a sua devida educação, pedagogia e escolas, vamos a elas no próximo texto…

Vitor Ahagon é Professor de História que detesta dar aulas EAD, contudo acha imbecil as aulas voltarem em meio à pandemia.

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